sábado, 31 de dezembro de 2011

Possibilidades











E se um sonho pisasse no chão?
E se da pisada brotassem sonhinhos?
E se eles crescessem e virassem flores?
E se saíssem pelas ruas?
E se o multicolor não fosse estranho?
E se o estranho fizesse feliz?
E se a felicidade fosse amanhã?
E se o amanhã já fosse hoje?
E se o amor fosse a nova ordem?
E se o desejo não fosse pecado?
E se a verdade não existisse?
E se a existência brilhasse e brilhasse?
E se mãos fossem mais que mãos?
E se um cometa queimasse os olhos?
E se chuva molhasse os pés?
E se você fosse como quisesse?
E se não houvesse mais nada?
E se o nada fosse repleto?
E se você ouvisse lembranças?
E se a memória toda furasse?
E se a utopia vingasse?
E se o mundo de cá explodisse?
E se do fogo brotassem vontades?
E se o todos fosse mais do que o eu?
E se não fosse crime lutar?
E se a vida fosse de círculos?
E se a liberdade fosse presente?
E se a alegria girasse?
E se pudéssemos agir?
E se nos acompanhassem?
E se o novo fosse amigo?
E se o novo fosse agora?
E se o novo estivesse ao alcance?

Do chão, da memória, das flores, das ruas, das mãos, de todos...
E se as possibilidades tornassem-se reais?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Desejo para 2012

Andrey Demin, Sunflowers

Desejo neste fim de ano, a tod@s @s meus/minhas amig@s mais que felicidade. Desejo que saibam o quanto são importantes por serem como são, em seus acertos e erros. Desejo que saibam como é bom ter vocês na minha vida, roubando um pouco de cada um/a pra formar minha subjetividade doida. Desejo que nós, todos nós, tenhamos alegria e força, nessas lutas diárias, de mão com mão, de luz em luz. Desejo girassóis, copos-de-leite, mandacarus.

Desejo círculos de memória. Desejo que me perdoem pelas más ações, que tolerem as faltas de atenções, que superemos qualquer insônia. Desejo menos nostalgias e mais saudades, menos facebooks e mais ruas, mais lágrimas de aventura, mais sorrisos de porventura. Desejo saudades, pois esse gostinho é sal que tempera a vida. Desejo amor, amor, amor. Amor de verdade, em dose, de concreto, de vertigem, amor-espanto, amor pequeno que seja, amor ventania. Desejo aos/às que entraram em minha vida neste ano, que permaneçam juntinh@s, e aos/às que se afastaram, que retornem, vez em quando.

Desejo que enxerguemos que o ano que se inicia é apenas nada. E nada é cheio de tudo, de possibilidades. Desejo que tomemos em nossas mãos essa caneta véia da vida, e assumamos isso de sermos artífices de nós mesmos, do nosso ao redor. Desejo que tudo isso seja mais que desejo e que pensemos pensemos e pensemos. Sejamos. Que nosso mundo triste é que se acabe em 2012. E um novo – que alguns chamam Utopia, comece a ser construído – dentro de cada um/a de nós, por cada um/a de nós, para cada um/a de nós, e aos/às que estão por vir, assim como os anos que virão. Gosto tanto tanto de todos vocês... De formas diferentes, e gosto. Sou vocês também. :D

sábado, 17 de dezembro de 2011

[Amor em tempo de redes sociais] Capítulo 2 - O telefonema





Vibrou.

- Alô, quem é?
- Se eu disser algumas palavras você me reconhece?

Silêncio. Ela sabia quem estava ali, do outro lado da linha, mas...

- É algum tipo de trote? Não conheço esse número.
- Flor, flor... “Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”.
- Olha aqui...
- Minha linda!

E ela não pôde conter-se. Aquela voz que recitava a fazia sorrir e temer. Lembrou de cabelos emaranhados e do quase atropelamento.

- Já sei quem é. Agora, cara, eu te dei meu telefone, mas não era pra você ficar me incomodando com besteira. Oxi!
- “A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca”.

Mais uma vez, silêncio. Como era possível, ele contorná-la daquela forma, pensou. Citar Drummond assim, na cara dura. Acionável.

- Oi...

Respirou profundo...

- Certo. O que você deseja?
- Tenho que te confessar que teu microblog me toca mais do que teu próprio olhar. E teu olhar me toca, me toca muito. Preciso dele.
- Obrigada. Mas como é possível tocar, nessa virtualidade toda?
- As palavras são sempre palavras, bebê. O meio é só detalhe. Tuas hashtags são pra mim, asas belas e espalhadas. Sei de você, agora. Sei de você.
- Nada nada. Os 140 caracteres que me limitam, nada dizem sobre mim. Mas tem uma coisa. Não sei seu nome.
- Cravo, pra te acolher, minha flor. Meu nome é Cravo.
- Cravo tu tem na cara, abestado. Quero saber o teu nome.
- Nossa, nossa. Assim, você me mata. Bruta como uma tigresa que quer dar o bote. Você quer dar o bote?
- Rapaz, assim você me faz perder a paciência. Liga do nada e ainda me ofende.
- Não se perde o que não se tem, minha linda. Te dei pedaços de fala doce e você tão bem ignora. Se aborrece por uma única palavra, que nada mais é do que a verdade do teu momento/espírito.
- Olha, acho melhor eu desligar. E também acho que você não deve ligar mais.
- Se você quisesse que eu desligasse, já teria feito. Você não quer, eu vejo aqui. Seus olhos estão brilhando na minha lembrança. Ai de mim, que te tenho em vento, só em memória.
- Caralho, mas você é dramático e brega, viu?
- Sou e não nego. Não mudo quando puder, posto que brega é amar pouco e eu amo.
- Ama?
- Sim. Você.
- Risadas múltiplas pra ti. Como me ama? Tá doido? Me viu uma vez só e já fala uma coisa dessas?
- E o amor à primeira vista, tá pôdi? Te amei ali naquela parada de ônibus, e já devia te amar antes, só não sabia.
- Oh My God! É, meu filho, é. Deixe de conversa. Bicho queixudo de uma porra. Ave Maria!
- Linda e linda. “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.
- Lá vem você com Drummond de novo. Tá certo. Mas me diz o teu nome, rapaz.
- Se não aceita Cravo, pode me chamar de Pedro. Inclusive, eu tinha te dito meu nome e meu CPF, da última vez, não lembra?
- Humm, é verdade. Minha memória me trai de vez em quando. Mas o que você quer?
- Você.
- Eu não sou algo. Logo não posso ser de ninguém além de mim mesma. Sinto.
- Então quero te ver.
- Não sei. Final de semestre tá phoda. Muitos corres, muitos, muitos.
- Deixe disso, minha flor. Drummond já dizia que “perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes”.
- Tô precisando sair mesmo. Mas não sei...

Aquele barulho chiado, que só as operadoras de telefonia móvel podem oferecer aos seus usuários em momentos decisivos, rompeu.

- Aprendi a esperar com as paredes. Se você não quer, não posso fazer nada. Mas se quiser, posso fazer muitas coisas.
- Não sei, não sei.
- Agora se você não sabe, não sou eu quem vai saber por você. Você tem razão. Vou parar de lhe incomodar, embora meu coração se aperte. Adeus.
- Espera!
- Oi?
- Você parece... Sei lá... meio doido. Mas gosto de conversar contigo. Podemos ser amigos e marcar alguma coisa.
- Amigos sim, claro. Não há amor sem amizade. Então me encontra no sábado, às 20h, no Centro Cultural Lagarto do Oceano.
- Tá. Seu persuasivo!
- A gente só faz o que quer, minha Linda flor. Desde já, meus pensamentos são teus. Até.
- Ok. Tchau.
- Cheiro no cangote.

Ela desligou. Naquela noite, sonhou com cabelo emaranhado em suas mãos. Olhos vibrantes lhe davam carinho depois do amor.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Iracema


Fitou o ovo. Fitou aquele círculo amarelo que não se estribuchava como o ao redor branquinho. Tinha em algum lugar um risquinho branco, que sambava com a quentura. Esperma de galo. Ficou pensando se pudesse ter sido vida. Mas era só um risquinho branco. Sentiu nojo. A barriga gritadeira não deixou que ela tivesse o luxo de jogar o ovo fora. Ali, um ovo frito a encarava.

Esqueceu uns pensamentos sórdidos na beirada do fogão e foi chamar a irmã. Pequena, belíssima. Catarro escorria-lhe pela face manchada de mundo. “Atentada, vem pra dentro senão eu meto a chibata em ti!”. E não sabia o porquê de fazer da criança sua raiva. Raiva da mãe que a batia. Raiva do pai que nunca a defendera. Sempre bêbado, lerdando em meio olhares. Raiva de terem raiva dela.

Era pequena e grande e vendia corações. Corações de côco, de brigadeiro, corações-morango, corações-baunilha. Tacava a mão na barriga com força, como quem quer expulsar. Foi que, um dia, ela conseguiu. Carregava bucho e balde pra todo canto, quando sentiu chão molhado de dor. Nem era a água de kiboa, era vida escorrendo. Envelheceu. Desde aquilo, trinta anos a consumiam. O tempo mentia-lhe 16, mas a pele murcha e o olhar cainte não enganavam. Perguntava-se, fitando ovos, como tinha tantos anos em tão poucos. Vexames.

Tinha um pé grande. Acordava de 5h. Amarrava o cabelo pixaim e ia embolar corações congelados, em papel cor de lâmina. Tal qual o seu. Detestava chocolate. Era bom que nos aperreios de fome, não iria comer as mercadorias. Seu ganha-feijão.

Ali vivia. Ali, num lugar chamado canseira. Carregava a irmã pelo braço a cotoveladas e maus olhares. Pequena, belíssima. Olho de bila, já sem catarro. E tinha dia que saia só. Foi quando conheceu ele, tão grande. Quis roçar naquela barba. Quis deitar no sem camisa. Quis. Tinha medo. Noivaram. Pois que o pai exigiu o passo à passo do mandamento. Importantíssimo, segundo ele. Já dividiam rede, mas o casamento estava marcado. Iam morar ali mesmo. Era só questão de papel.

Mas a menina era triste em sua felicidade plena. Amava. Tinha amor. Faltava-lhe algo. Um vaziozinho a roía por dentro. No coletivo, não compravam mais corações como antes. Desceu do ônibus meio cheio, meio vazio. Um solzão alumiou demais sua cara. Parecia o ovo quente que ela fitava. Amarelo. Raiozinho branco, vistou. Ariou-se. Não prestou atenção, veio um carro e a colheu.

Seu menino fez-lhe um samba. Chora até hoje, com seu vestido e um sapato. Deu um retrato por perdido. Pobre Iracema.

tá...
Essa não é a história de Iracema, mas podia ser. Ouve aí!


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Pela janela do ônibus


Quando a sua vida é uma confusão de pensamentos, as músicas ficam mais molhadas, as vidraças mais embaçadas, os sentimentos mais carcomidos. Fica aquele velho fone de ouvido tagarelando letras insuportavelmente apropriadas, enquanto você olha pela janela do ônibus, analisando uma correria de casas. Vazio. Você fica se imaginando num filme Ind-cult-bacaninha qualquer. E seu drama fica mais drama, sua tristeza mais tristeza.

Daí vem um batalhão bruto de lembranças, feito polícia em greve. Boom. Desce a primogênita, escorre e salga sua boca. Imunda. É aquela hora em que você queria um braço. Aquele braço. Aquele braço que te pede cafuné. Aquela hora em que uma flor seria a água mais doce de três dias de sede. E a vida passando. Lá fora.

Disseram que você tem um coração mudado. Então você acha que tem um coração abestado, que bate demais. Roga, sonega, implica com ele. Mas o sangue que corre ali é seu, e você nem se toca. Você está tão enclausurado em si, nessa coisa besta que chamam de alma, achando que a vida corre fora, corre, que não liga. E você lembra. Porra de memória. Tá ruim ser ser humano. Então você pensa que devia era ter nascido peixe. Só o filé, seria.

domingo, 6 de novembro de 2011

Não dizer também faz mal














Ela solta:
- Você é uma besteira gostosa e prejudicial...
- Valeu!

Silêncio.

- Sabe...
- Diz.
- Nunca pensei que eu pudesse...
- Pudesse o quê?
- Ah, deixa pra lá!
- Caralho, eu odeio quando tu faz isso, Flor!
- Meu filho, não vai adiantar eu te explicar.
- Tente!
- Não, não. Deixa...
- Tá certo!

Silêncio.

- Mas...
- Hum?
- Realmente, eu acho...
- O quê?
- Tu não ia entender...

No fim, ambos sabiam que ele entendia. Mas certas coisas não precisam ser ditas. Outras sim. Pecaram por omissões, se fizeram mal por vazios.

Silêncio.

- Porque tu é assim hein?

E ela não viu, mas ele tinha água nos olhos. Arrependeu-se do que perguntara.
- Porque eu tenho medo...
- Oh xuxu!

E ela fez-se proteção. Enxugou inseguranças, tocou lábios no sal. Silêncio. Abraços-conforto deram continuidade ao que não sabiam no que ia dar. O balanço da traseira do ônibus fez menear aqueles corações, tão pedaços, que não queriam unir-se. Puro medo.

Silêncio.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Missiva de abandono


A lua tava ali sorrindo pela metade, e eu aqui, me enchendo de agonias. Tenho muitos vocês dentro de mim. Verdadeiros, distorcidos, degenerados. Tenho muitas tristezas acumuladas, e não quero mais adiar explosões completas. Cometi o erro acertado de sentar e te pôr em letras, visto que já não posso mais deletar essas linhas, confesso. E antes que o pior se enchente, vou ali ter uma boa noite de sono dessa semana de cansaços.

Perdi uma lágrima pedra no olho. De raiva, em flor, repetida. Tenho uma aspa comprometedora. E se é neste momento, que me acalanto por escrever de ti, me despeço do que ainda não temos. Antes perder o não dado, que dar o si que já não se tem. Antes devolver-se ao que se tinha antes, que ir mergulhar em estreitos. Antes destruir o não feito, que costurar nadas soltos.

Pensar é o mal. Não, sentir. Sentir é dor e prazer, que, no fundo, é dor também, dor de prazer. Pensar é o mal. Voltas e voltas. Go or not go. Dizem preu ir. Não. Vou ficar, rasgando coisas, separando guardados, aguardando futuros, dizendo não pra quem eu tenho que dizer. Dessa vez, tuas aspas me cortaram. Dessa vez, elas mesmas, hão de me ajudar no nosso bem mal, no nosso mal bem. Separemos. Antes que vidas se percam, ou se encontrem em barroada. Não. Não agüento mais tropicões. Adeus.

domingo, 30 de outubro de 2011

Tão certo

Era uma petúnia e estava cansada. Era uma rosa e não tinha volumes. Era um cravo e jazia desboto. Era uma orquídea e permanecia virgem. Era uma tulipa e se mantinha aberta. Era uma Hortência e tampouco se alegrava. Era uma margarida e se sentia apática. Era um crisântemo e ficou feliz. Era um jasmim e não tinha leite. Era um girassol e não movia brilho. Era uma flor e, certamente, não viveu as mais lindas efemeridades. Tão certo quanto os espinhos andaram por lhe ferir.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Se eu...

Tem horas, que é melhor escrever com a letra dos outros pra dizer o que a gente tá sentindo...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

[Amor em tempo de redes sociais] O início


-Ei, você deixou cair isso!

Ela se vira majestosamente...

- O quê?
- Um pedaço de beleza aqui, ó...

Ela sorri pequeno! Tinha medo dessas cantadas bregas, mas fazer o quê, se ao menos eram engraçadinhas.

- Me desculpe! Foi mal, foi mal... Esse pedaço de beleza não pode ser seu. De jeito nenhum! É só olhar pra ti, lindeza, que a gente vê que a sua beleza tá mais que completa.

E ela não pôde conter. E um brilho pintoso rasgou a cena. Era um super sorriso que se abria na boca fina.

- Cantada barata viu!
- Barata, mas lhe arrancou felicidade e me deu a belezura do teu sorriso. Vai ser linda assim lá no papel de parede do meu Mac, juntinho de mim, na prainha!

E ele era desconcertante.

- Rapaz, eu tenho que ir. Você pára as moças assim, aleatoriamente, pra falar de beleza e sorrisos, é?
- Que nada moça bonita! Foi tu que lascou esse jeito de andar no meio das minhas fuças. Ai, dei de me encantar. Sabe...

Silêncio. Ela que já ia virando-se para partir, sentiu um algo que lhe puxou a ficar. Perguntou.

- O quê?
- Gosto de números. Quando eu era pequeno, decorava número de tudo. Nem sei se ainda consigo. Você podia me ajudar...
- Hum, até já sei. Mas desculpa, não costumo dar meu número pra qualquer pessoa.
- E eu sou qualquer pessoa? Avistei tu de longe, e quis até te ajudar, catando do chão o pedaço de beleza, que por sinal, nem era seu...

Mais um sorriso arrancado.

- Podia ao menos conversar comigo. Posso te acompanhar?
- Acho melhor não. Não te conheço...
- Muito prazer, me chamo Pedro Andrade Feitosa Leite. Meu CPF é 123 477 777...
- Tá bom, vai...
- Então, como ia dizendo...
- Mas vou avisando logo, a rua é pública e você pode ir andando ai, só não tente nada viu?
- “A noite ascendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão”.
- Oi?
- Nada não!
- Foi bonito o que você disse.
- Mas não foi eu quem disse. Foi o Quintana. Mário.
- Hummm
- Estamos conversando há três minutos, eu já posso saber o seu nome.
- Cuidado!

E ela puxou ele duma vez.

- Tu é abestado é? Atravessa a rua sem prestar atenção!
- Mas eu tava com você. Você salvou minha vida. Sou-lhe grato. Agora eu preciso te agradecer, e, pra isso, preciso saber o seu nome.

Ela, calada, sentiu um vento frio, da noite que já sorria por entre nuvens amareladas.

- “Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem...”

Ele continuou, o que a deixou surpresa...

-“Seu nome não está nos livros”.
- “É feia, mas é realmente uma flor...”
- Ah, com isso eu não posso concordar! Mas como assim, seu nome é Flor? Sua mãe era hippie?
- Era. Já vi que você gosta do Drummond. É, você não é de todo mau.
- Você pode descobrir mais de mim. Te dou meu facebook.
- Quem disse que eu quero?
- Pois me dá seu telefone, que eu não te dou meu facebook.
- Não vou dar o número do meu telefone para um louco que acabei de conhecer, e que é tão lesado, que quase ia sendo atropelado!
- Por quê?
- Eu preciso responder?
- Claro!
- Porque celular é uma coisa muito pessoal. Você pode falar comigo instantaneamente, me encontrar onde eu estiver, é muito impessoal para se dar para estranhos...
- Tá, então vamos por partes. Você me disse seu nome. Não devem ter muitas Flores no face. Vou te achar. Você usa muito ele?
- Uso. Tô meio viciada...
- Você é bloqueada?
- Como assim? Ah... Não! Isso é besteira.
- Pois tá parecendo...
- Hã?!

E aqueles olhos pretos dela se encheram de uma fúria vermelha e rosa.

- Qual teu sobrenome?
- de Sá.
- Humm. Agora é fácil. Flor de Sá! Tudo bem, tu não me deu teu telefone, mas eu posso descobrir o que você faz, onde você trabalha, onde estudou, quem são seus amigos, que lugares você freqüenta... Até seu endereço, se você for chegada num chek-in! Mesmo assim, tu não vai me dar teu número?
- Claro que não. Celular é demais!
- Tá certo. Vou desvendar seus gostos, ver sua idade, ver que cantores você escuta. Vou saber da sua rotina! Vou interagir contigo. Mas queria você analógica.
- Ave! Analógica. Mas tu perturba viu?!
- Ainda mais linda enfezada! Eita, que a raiva é mais divina que a calmaria.
- Cara, desiste! Tô indo aqui pegar meu ônibus...

E ela saiu andando. As costas queimavam, e a vontade de virar e olhar o porquê de ele ter parado de segui-la foi maior. Ele gritou:

- Eu só preciso de oito números, que vão me garantir a felicidade o resto do dia. Plisi, dont go! Faça alguém feliz. Me faça feliz.
- Ai como é brega...
- O que seria do mundo sem os excessos de breguice?

E dessa vez, foi ele quem sorriu. Amplo, calmo, encanto. Ela estremeceu. No fundo de sua alma, alguém sussurrou: “lerda!”. Ela, então, tirou da bolsa, papel e caneta. E quando olhou pra frente, viu felicidade materializada naquele olhar de menino abobalhado.

- Taqui ó. Agora, por favor, sem excessos.
- Fica parada!
- Pra quê? Vai me assaltar?
- Não, só vou te roubar coisas mais pra frente. Agora só quero guardar na mente a tua beleza completa. Sua linda!

E saiu correndo pela rua, balançado por sorrisos múltiplos. Ela ficou ali, besta e até perdeu o ônibus.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Hey dicho
















En la orilla de mi cama
nadie nunca puede andar
para veer de fato lo que existe
dentro, dentro, más allá

Como en las orillas del rio manso
desde lejos han de caminar
porque corazón es fondo
lecho es llano, vago de dar.

pero la pose de él, que es mío
es difícil de entregar
fácil, fácil error parece
Para cualquier uno se engañar.

En mi cabecera sólo yo
puedo de todo entrañar
hacer fiestas en mi sueños
pensando que tu luego vendrás.

Las mujeres no pueden darse
como quieren, quieren dar
yo, burlona que logo soy
hago mi lecho, pero no más.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Invariável mente...


Invariavelmente, estou buscando. Pedrinhas, doçuras, extremos. Me exultam infinitos. Me ilustram cores quentes, sons amenos. Me balanço de orixás. Me banho de ilusões diárias, perdidas. Descrevo finduras soltas, sambantes de mim. Distante, etérea, vagosa. Me sufoco assim em pronomes de primeira pessoa. Egoísmo exorcizante. Psicografo subjetividades que não são minhas. Releio, e é como se já as tivesse em decoro. Visto meus dedos de calos e dores de alma. E descanso de mim. Fatiga que destrói meu tédio. Repetições. Vou vivendo...

sábado, 15 de outubro de 2011

Origens do flutu-ando...


Tem desses inconscientes empoeiradas que só modelam de coisas bobas mais relevantes do presente? Tinha disso nas crenças da moça. Ela sorriu e lembrou do causo. Pois que num dia desses de desânimo total resolveu desligar a playlist que ressoava Baden Powell e varou a noite de rua em rua.

Diriam que era louca, por sair em subúrbio tão coloquialmente aterrorizado e aterrorizante. Fazia já duas horas que alguns relógios gritaram meia noite. Mas o ar era tão frio e penetrante que ela até esqueceu tempo, efemeridades.

Feito besta, andou e ouviu tambores na mente. Esticou os braços e a preguiça lhe deu uns tapinhas de leve. Teve vontade de assistir desenho animado. Teve vontade de abraçar um gatinho que passava. Teve vontade de escorregar naquela calçada, topar e cair levemente, como se flutuasse. Varou uma esquina correndo, escorregou e caiu. Deitou, confortavelmente, numa queda em folhas secas tão macias como braços. Suspirou profundo e as folhas eram penas que lhe acariciavam. Nunca se sentiu tão confortável em toda a sua vida como naquele instante.

Sem perceber, já estava de pé. Em outra rua, ainda buscava a noite. Pé-ante-pé, ilustrava o escuro com seus sorrisos. Era alegria de vida que explodia dela. Deu por si e já estava correndo embaixo de árvores que lhe davam sombra na noite escura. Correu e caiu uma queda sem dor. Caiu e sentiu o aconchego do tufo de folhas que a embalava no colo. Do fundo dos olhos fechados, o escuro era mais escuro. O corpo ia e vinha sem sair do lugar. Lembrou de alguma coisa que não tinha a mínima importância e dormiu aquele sono acordado. Caia, caia, caia. E quanto mais caia, menos sentia-se.

Era impossível saber onde começou ou acabou. Mas o despertar, que ninguém sabe de onde vem, abriu seus olhos e ela nunca soube o que tinha sonhado naquela noite. Até que outra noite veio e essas mesmas quedas a repousaram. Sonhos-repetição. Lembrados e esquecidos. Antes que a vida os apagasse, ela resolveu escrevê-los. Freud não explicaria.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Déjavu


E é muito bizarro porque é de uma vez. Você vive por segundos o que a sua mente reconhece como já vivido. E pensa que já foi vivido mesmo. E pensa que não foi vivido nada. A situação é tonta. Sua cabeça roda, e você analisa a repetição. Mas a memória não te dá momento/lugar/tempo em que se foi vivido aquilo. É mais sensação que lembrança. É mais lembrança que experiência. É como marca que nunca foi deixada. É tão latente e confunde tanto por não explicar, que a vida para ali e as respostas não vêm. É como se em algum lugar da infância você tivesse sonhado com aquilo e agora vivencia. E é situação-besteira, banal, mas impressiona posto que não se entende. É e não é. É como que aquela linha, que você não sabia que existia, tivesse quebrado em pedaços de tempo, rapidamente reconstituídos por um olhar de atenção. Vez ou outra, sinto dessas coisas.

Ouvi dizer que estão presentes em várias vidas. Rasgando monotonias. São cérebros tacando facas no tédio pra não deixar a loucura chegar. Ou seria uma lambida na esquizofrenia? Testes esquecidos e não legitimados de previsões de futuros baratos que a gente não releva. É essa mania de não darmos a estima que o nada merece. Pra não cair nessas coisas de amar importâncias, vou ali ler o livro das ignorâncias, de São Manoel de Barros.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Porque sempre amou o negro


Tinha uma caneta e não conseguia mais escrever. Seus dedos, já tão treinados, gostavam de açoitar aquela estrutura tão organicamente hierarquizada. Sopinha de letras com organização.

E seu coração tinha mania de só querer escrever quando sentia vontade. Aliás, ele dava de gritar, fortemente, com ar emprestado do vizinho pulmão. Já que era um coração de mulher, fazia-se flor.

Despetalava-se nas letras, ali postas, redondamente, retamente, certamente... Flores estavam por toda a parte. E não sabia sobre o que escrever. A primavera não tinha acabado e já lhe era crônico falar tão delas. Podia falar da nudez do eu, mas cansar-se iria, e lhe era tão fatigante como amar.

Viu que escrever gastava o coração, assim como amar. Disseram que lhe faltavam ternura e confiança. E era verdade. A verdade era forte, e tão pronto não parecesse, ia lhe comendo, inconscientemente, até lhe faze escrever asneiras numa tela de fundo preto. Anormalidade.

“Essa menina é toda ao contrário”, seu pai lhe dizia. Não apenas por deixar o ventilador ligado no quarto vazio, enquanto dormira na noite quente com ele desligado. Mas sobretudo pelas roupas coloridas, pelo jeito temperado, pelas falas desvairadas e por não querer ir à missa no domingo à noite. Viu que ele entendia mesmo das coisas.

Gostava tão plenamente de ser assim, avessa, quanto gostava de escrever besteiras troçadas na página negra. Lembrou de quando era criança e queria ser negra. Achava tão linda a cor morena. Parecia-lhe até, que quando tocava o braço da amiguinha, ele era mais macio, mais carinho. As vozes dos cantores eram mais lindas, e o cheiro da mãe era mais belo. Não tinha o balanço de samba que a amiga tinha. Nem os cabelos tão lindos e negros que completavam a pele escura. Era pois, amarela, sem graça, sem samba, sem cheiro, sem voz ou maciez.

Um dia ouviu dizer que os negros envelhecem mais devagar. Lembrou da avó, e de como ainda era jovem e bonita. Depois foi sabendo das coisas. Navios, porões, correntes. Conheceu orixás, terreiros, origens. Teve sorte. Invejou tanta força naquele sangue que também corria em suas veias. Ficou feliz por saber que sempre foi negra. Deviam ensinar essas coisas direito na escola. Ficam fazendo frustração em criança. Maldade.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Dizem que as flores nascem na primavera...


Dizem que as flores nascem na primavera. Como por aqui, esse negócio de estação do ano é besteira, me conformo em usar do título e da forma. Seja nos textos, nas roupas, ou mesmo, nos amores vividos ou não.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A partida / A tormenta







A partida

Já não mais via explodir estrelas nos olhos dele. Mas foi quando viu marasmo naquele meio-dia que sentiu algo dentro de si estremecer. Falou curto, até feio, como já tão bem a habituara. Sentiu como se comesse catchup c
om gengibre. Um gosto de culpa e incapacidade fechou e ardeu sua garganta.

-Não dá mais!

Ele soltou límpido. Calada, ela sentia-se morrer.

- Se você quer assim...

E juntando primeiro roupas, tão bem espalhadas por todo o quarto, ele se irritava.

- Você viu meu modem?
- Está no bolso da sua mochila.

Ela começou a juntar os cacarecos tecnológicos e efêmeros que tanto deram prazer e felicidade momentâneos ao ser amado. Seria ela só mais um, perguntou-se. Buscava oxigênio, tanto para evitar que aquela água toda se caísse, como para continuar existindo, respirando. Crescia os olhos. Sentou na cama. Investigava cada ação supranervosa daqueles dedos trêmulos que noites atrás passeavam por ela.

- Você viu aquele par de meias ver...?
- Tá na segunda gaveta, do lado esquerdo.

E perseguia com os seus, aqueles olhos que evitavam lhe fitar. Como era lindo aquele olhar. Como foi lindo quando, por uma força maior que brotou dentro dela, não mais teve medo e o encarou, enco
rajando-o. Na festa, no quarto, no altar.

Queria poder pedir ao menino travesso destino para deixar de lhe jogar pedras naquela frágil vidraça, que ainda chamava coração. Levantou a cabeça e gritou com o olhar. Queria mesmo gritar ali, jogar-se a seus pés, pedir que ficasse, que repensasse, que a amasse indefinidamente, que tivesse um filho com ela, que...

- Amor...

Aquele quase
amor pronunciado pelos lábios elásticos que ela amava a fez saltar de seus devaneios. Mas sabia que a chamava assim por hábito. Puro, estúpido e assassino hábito. Ele se refez do ato falho e perguntou outra pergunta qualquer que ela não escutou, porque descobriu que perdia os sentidos. Descobriu ali que era ele quem integrava os seus sentidos. O mirou:

- Oi?
- Achei!

Eu até cantaria pra ele se assim me pedisse, eu até passaria o dia fazendo compras se assim desejasse, e
u até pegava a cerveja na geladeira se... E logo um pedaço d’água partiu a dignidade que tão bem estava protegendo-a. Depois um soluço, seguido de outro e de um punhado deles, convulsivamente, escondia-os entre os dedos.

Ele a agar
rou imediatamente.

- Meu xuxu, eu não queria que fosse assim...
- Não estou pedindo nada a você. Só não posso evitar, só isso.
- Não chora, assim você me deixa triste.
- Você já está triste, só está se protegendo atrás dessa indiferença toda inquieta.
- Você sabe que eu...

Ela arrastou a mão pelo rosto molhado, enxugando-o parcialmente. Embora ainda sofresse, uma paz a fez vibrar um pouco.

- As chaves do carro estão na mesinha do lado do sofá. Depois a gente discute sobre as coisas pequenas, já que não temos crianças por quem chorar.
- Minha flor, como eu queria...
- Adeus
- Te ligo!

E ele terminou de juntar as mesmas coisas que eram dele, quando ele era dela. Rumou para a porta.

Ela ficou ali, sofrendo com a ida dele, parada, dormente, partida.










A tormenta

Sentia que a vida estava muito completa. Nada era emocionante naquela perfeição toda. Amava-a e sabia que tudo estava indo tão puramente bem que era sacal. Pôs em prática a decisão na hora mais quente do dia. Falou curto, até feio, como há alguns meses andava fazendo. Viu névoa nos olhos dela. Mas evitava a olhar.

-Não dá mais!

Ele soltou límpido. Calada, ela sentia-se morrer.

- Se você quer assim...

E juntando primeiro roupas, tão bem espalhadas por todo o quarto, ele se irritava.

- Você viu meu modem?
- Está no bolso da sua mochila.

Ele não podia acreditar como o amor da sua vida estava ali indiferente, juntando suas coisas mais caras e mais legais. Seus prazeres de horas, aos quais ela vivia o recriminando. E agora ela estava ali, catando-os, como num ritual. Mesmo olhando sorrateiramente para ela, enxergou nervosismo naquele corpo esguio, que parecia trêmulo. Aquele corpo que ele tanto amava, que lhe sorria impecavelmente. Como a adorava. Seu jeito, seu porte, sua inteligência.

- Você viu aquele par de meias ver...?
- Tá na segunda gaveta, do lado esquerdo.

Achava inacreditável como ela poderia ser tão organizada, tão metódica, tão sistemática. Ele arrastava-se pegando cada coisa, embora vez ou outra, a visse sentada, com aqueles olhos pequenos. Como os amava. Desde que naquela festa escura, eles se iluminaram à medida que eles se paqueravam. Até como o olhava antes de dormir, carinhosamente, pedinte, intimadora. Ou ainda quando esqueceu-se que era um, pra ser dois.

O desejo de ficar queimava-lhe o peito. Mas quem sabe aquilo não fosse o melhor para ambos. Não queria admitir pra si próprio, mas custava segurar o coração que pulava danado, feito garoto tinhoso querendo fugir. Acreditou loucamente que a separação seria o sopro de confetes de que precisavam. Lembrou do tempo em que esteve na marinha, e era como se um daqueles nós que apreendera estivesse agarrando as suas cordas vocais. Soltou:

- Amor...

Como pôde ter dito aquilo. Iria chamá-la pelo nome. E sem querer chamara-a de amor. Era tão dolorido chamá-la pelo nome. Não era só hábito, era um vício constituinte do amor que se agrega na linguagem da pessoa. Ferida inconsciente. No fundo, não estava mentindo. Tinha, desesperadamente, que perguntar qualquer besteira para disfarçar seu ato falho. Falou e ela pareceu não o escutar.

- Oi?
- Achei!

Ele viu que ela estava mesmo trêmula, notadamente. Porque a fazia sofrer assim, perguntou-se. Porque se fazia sofrer assim, perguntou-se. Lembrou dos tempos primeiros e dos seus planos. De como a amava pelo que era, pela beleza cheia, repleta de espertezas e aspirações, por sua vontade de salvar o mundo e por como tratava tão ternamente as pessoas. A quis exultante, a queria exultante. Caiu dos seus pensamentos quando ouviu um soluço da mulher que mais amava na vida. Correu para acalantá-la.

- Meu xuxu, eu não queria que fosse assim...
- Não estou pedindo nada a você. Só não posso evitar, só isso.
- Não chora, assim você me deixa triste.
- Você já está triste, só está se protegendo atrás dessa indiferença toda inquieta.
- Você sabe que eu...

Antes que ele tivesse coragem para juntar os pedaços de sua vida no chão ou enxugar o rosto molhado dela, ela mesma o fez. Mas viu o rosto dela se iluminar, preocupando-o.

- As chaves do carro estão na mesinha do lado do sofá. Depois a gente discute sobre as coisas pequenas, já que não temos crianças por quem chorar.
- Minha flor, como eu queria...
- Adeus
- Te ligo!

E ele terminou de juntar as mesmas coisas que eram dele, quando ele era dela. Rumou para a porta.

Foi só quando se viu de costas, que um pedaço de água arranhou desde o olho até o canto da boca. Pegou o carro e durante todo o caminho, a vida ficou cinza, embaçada, tormenta.


domingo, 11 de setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Varreduras sem fim


E já tinha varrido uns pedaços de pensamentos imbecis, caídos ali no quarto. Deixou de remoer hahahas. Queria uma tristeza menos pesada. Foi que lembrou que o querer é pouco caso pra quem fica paradinh@. Viu que tinha muitos bibelôs e todos olhavam pro nada. Viu que tinha muitas cores, mas nenhuma lhe ardia nos olhos. Viu e vendo, pensou que podia ousar, como já lhe dissera em quadradinhos, Alan Moore.

Tinha uma cortina de quarto, florida e gaiata, que ia e vinha, revelando lembranças que não queria ter pela frente. Podia se disfarçar de ameba, mas mesmo as amebas, criminalizadas que são, deviam sofrer por não saber o que eram, e não saber o que era saber. Enfim, no fundo delas, na sua assexualidade, incapazes de amor que eram, deviam sentir alguma coisa parecida com falta dessas coisas que a gente gosta e odeia.

Se tudo é só ponto de vista, então o nada é tudo, se eu quiser que seja, concluiu. E olhou pra cadela que vinha em seu encontro, olhos lindos, chocolate, focinho pedinte, afeto demonstrado no rabinho balançante. E viu pureza ali. Lembrou de São Francisco, lembrou dos laboratórios, lembrou de Madagáscar. Deixou de fribilar hahahas. Era muita coisa perdida, por se encontrar. Era muita coisa achada, por se perder.

Dar unidade á ideias dispersas era tão sacal quanto conversar com eles ou ouvir Lulu Santos. Era melhor assim, caos bonito, pensamentos jogados, confusão faxinada de si. Resolveu que ia comer dicionários para dar-lhe sustança pro mais a frente. Mas recordou que tinha de ir com calma, pois que se lhe sobrassem versinhos, pedantismo cruel podia parecer. Tomou por acatamento, retardar a refeição para mais além.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Farsa histórica, número de vida, dia de ócio, amor e mudança


Era 7 de setembro. Faltavam sete dias para o seu aniversário e, do fim de seus dezessete anos, decidiu que era dia de errar. Encontrou-se com o namoradinho, primeiro na vida, e fez dele primeiro naquilo que ele tanto pelejava conseguir.

Despediram-se dos amigos e caminharam naquelas ruas frias, ainda cheias de mato e casas bucólicas. Na cidade mocinha, assim como ela, trocava ternura com aquele seu primeiro homem. Tudo era nebuloso ao redor, menos o calor que emanava deles. O abraço do menino, que era quase meio metro mais alto que ela, a confortava rumo ao que sabia a esperar.

Desses jovens que se beijam loucamente em qualquer esquina da cidade, repetia hábitos, mas dessa vez, a esquina, ou mesmo um muro escuro, não seria suficiente para ocultar sua travessura.

Sabiam da existência daquela vilinha de casas, cuja construção ficara inacabada há alguns meses. E cujo mato aflorava dando ar de natureza aos tijolos cinzentos. Era naquilo que um dia poderia abrigar alguém, que escolheram recanto. A noite já despejava escuridão no lugar e por sua lembrança passou uma letra da música cantada na infância. Segurou-se para não pronunciar os versos “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não...”, quando o braço forte que tão bem conhecia a puxou para o que seria outro compartimento.

Estavam ali, sós, entre quatro quase paredes, altas o suficiente para escondê-los da rua e dos olhos passantes. Ali, em pé, beijavam-se e conversavam. Ele, insistentemente carinhoso, talvez a amasse, mas queria um amor concreto. Ela, relutante, desfazia suas investidas com medos confessados. O teto que tinham era de um preto bonito e intenso, respingado de brilhinhos, aos quais chamam estrelas. Vez em quando, encaravam a noite e tomavam banho de luar.

Foi numa tal hora que outros dois rostos, também tão jovens, pisaram mato e olharam para eles. “Tá ocupado”, riu-se o garoto, já saindo com a menina à mão. E do palpitar de coração mútuo voltou-se o silêncio. O casal não deixou de rir também. Esmagaram o constrangimento num beijo rouco e não tardaram a descobrir-se, juntos, sem pressa.

Ele se espantou por sua pele tão branca, tão branca de lua, e a amou. Ela provou coisa que nem sabia existir tão forte. E perdeu aquilo que ninguém devia guardar. Perdeu num abraço acalanto, num beijo torpor.

Apanhou roupas e arrependimentos, repensou-se. Refletiu como farsas históricas podem marcar dias de ócio para construir pontos de início, pontos de quebra de eus. Nunca escondera da mãe que se entregaria por amor, o que não era sinônimo de esperar por sacramentos que ela não pensava querer pra si. Desde então reformulou conceitos. Concluiu que o amor é sempre feito em destroços.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Porquês entre Beauvoir e Balzac


Ele jogava sal no seu amor. E ela, boba, chorava letras molhadas. Via bolhas coloridas e não sentia vontade de sorrir. Desenhava uma mandala e abominava seu próprio coração. Cruelmente sentia desfalecer esperanças, que não sabia por que cargas d’água ainda figuravam verdinhas. Já deveriam estar murchas, tristonhas. Aplicar-lhe iria a eutanásia bendita, se coragem tivesse pra tanto.

Um grito mudo e longo brotou-lhe do peito, saiu-lhe da boca cansada, assoprou o nada e estampou agruras em sua mente. Sentiu-se fatalista e breve. Sentia, sentia, esse era seu grande problema. Poderia romper-se sem dores ou prolongamentos de ilusões hiperbolizadas. Mas não. Ficava ali se carcomendo. Entregar-se iria ao pensar. Racionalizaria sentimentos, perderia bondades, negaria o necessário para a sua própria felicidade mal-grada.

“É tão fatigante detestar-se alguém que se ama!”, lembrou da cortante frase de Beauvoir. Mas não se considerava ainda uma mulher desiludida como no livro que lera há tempos. Ainda. Podia até ser a balzac-anamente mulher abandonada. Mas não se pode ser deixada por alguém que não se tem. Frustrava-se.

Como queria ouvir aquele “sois para mim a única mulher no mundo”. Mas não. Lembrou que a distância, dali a alguns dias, afastaria esses pensamentos permenorizadores de seu eu estúpido. Tentou se concentrar nas obrigações que a busca do futuro lhe impunha. Foi se questionar sobre os rumos de sua vida. Ai, como existir dá trabalho! Lembrou.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Queria ver meu gato bêbado



Sempre tirânico, me olha assim displicente e ágil. Gemido irritante, rosna carinhoso, pede abrigo no colchão. A noite pinta seus olhos de um preto mais cheio, mais belo. Dá ares de ternura. Arranha o sofá, como quem diz ter preguiça de viver. Como quem lembra de um passado egípcio de glória. Como quem sabe do poder que um dia pôde ter tido.

Sempre olha ternamente, pedinte. De comida, de água, de carinho, aconchego. E é todo formoso, elegante. Mesmo na indolência mantém uma dignidade aristocrática. Esnobe. De dia, o olhar é frio, de um preto riscado no azul celeste emoldurado no pêlo curto e branco. Maciez. Se estende no tapete até que sua companheira preta, linda, Tulipa, o venha incomodar. Inflada de birras, olhos saltitantes, linguona pra fora, morde o rabo indeciso do bichano lânguido. São opostos que se impelem em disputa dicotômica.

Preto, branco. Excesso, comedição. Alegria, classe. Minha cachorra, meu gato. Mesmo, quando eles correm um atrás do outro, de tamanhos pares, rumo ao nada, me apetecem. É só ai, que a altivez felina se quebra. Tem de fugir da cadela, linda, fofa, feliz. Tem de sair da posição impelida, queixo erguido, patas juntas, corpo simétrico e se jogar no jogo gato-cão. E mesmo depois, não aparenta cansaço. Língua guardada, músculos ao comando, olhar penetrante ou molenga. Queria ver meu gato bêbado. Talvez ele parecesse mais feliz. Mas quem sou eu pra tentar entender felicidade de gato.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A lenda do poste fofoqueiro


Era alto e luminoso. Quieto, passava o dia naquela rua, vagabundeando parado. Era nas noites que se fazia em fulguras. Iluminava bêbados tépidos, casais delirantes, passantes esquivos. A postura sempre ereta e o ar de fria serenidade observavam barras apressadas de roupa. Já vira de tudo. Morte, vida, atropelamentos. De ares altivos, acendia-se a cada vez que, terminada a luz solar, a lua se apossava majestosa do céu sombrio. O diâmetro de sua luz não era de se jogar fora. Tinha melindres vez por outra. Ora era fraco seu brilho, ora queimava pupilas de gatinhos indecentes. E pensava, de dentro do comprido retângulo sólido que lhe era a forma, o quão pequena e bela pode ser a vida de um poste.

Era um poste sim. E tinha consciência de poste, de poste maduro que era. Cumpria seu papel social lá na rua. Se equilibrava em fios, junto com a meia dúzia de companheiros postes, que por lá iam passando, estáticos. Feito de pedra e ferro, sentimento que é bom tinha pouco. Acreditava por coração, a lâmpada redonda ali presa à ele. Um coração da noite. Um coração que abrilhantava a noite. Se orgulhava disso.

Posto que um dia, como sempre ali estava, veio um dálmata pleitear lugar junto aos pés que nunca tivera. Não tinha olhos que faiscassem de raiva, mas tinha uma energia que lhe corria nas veias. Fraca, desestimulada, a energia subiu-lhe e nem sequer foi capaz de bater funcionamento no coração instigado da noite do poste. Com o ao-redor demarcado pelo cão, que rebolava sobre a calçada quente, poste ficou nostálgico e passivo, como era determinante de sua personalidade de poste.

Ser inanimado não é fato de toda deserventia, pensou. Conheço todos, as histórias me apetecem. E sei que das lembranças de casos de outrem, minha memória se enrijece e fica por horas me divertindo em flauta, concluiu. Dia certo se pôs a trocar historinhas de gente com o poste amigo. Conduzia pilhérias, escárnios e altas revelações pelo fio de cobre que os unia. Não faziam em maledicência. Mas se riam daqueles seres tão menores, que de vez em quando transplantavam corações de postes.

Ainda sem ter nem língua, poste saltava suas impressões da gente para os colegas. Corpos davam-se às mãos, corpos se batiam, corpos se abraçavam, corpos corriam, andavam, se cruzavam, sem nem sequer se ver. Foi identificando diferenças, que depois banalizou. Mas compartilhava o que via. Até que um corpo eletricista ouviu uma conversa de poste e espalhou pela rua o quão fofoqueiros eram os postes, mais ainda aquele comum. Desde então, os moradores do por-ali tem o precavido hábito de se preservarem diante de postes. Eu que não acredito nessas coisas, me escoro neles, ainda que me assombre o medo de choques.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Eduardo fala das origens desse mundo


Incrível como esse grande autor, que até inspirou um dos Encontros (Erecom Theresina 2011) da Enecos, coloca em xeque algumas certezas desapercebidas pela maioria de nós. Por exemplo, sempre que há alguma referência às personagens da História, o artigo usado é o masculino, e a certeza é sempre a de que os feitos foram realizados pelos homens. Eduardo Galeano, em Espejos - Una historia casi Universal, aponta para a origem de algumas construções históricas das opressões vividas atualmente. O texto abaixo é só um dos exemplos trazidos na obra. Fica a dica de leitura!

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Fundação da beleza

Por Eduardo Galeano
Em Espejos – Una historia casi universal

Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Estas figuras, bisões, alces, ossos, cavalos, águias, mulheres, homens, não tem idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.

Como eles puderam, nossos remotos avós, pintar de tão delicada maneira? Como eles puderam, esses brutos que a mão limpa pelejava contra os bichos, criar figuras tão cheias de graça? Como eles puderam desenhar essas linhas voadoras que escapam da pedra e se vão pelo ar? Como eles puderam...?

Ou eram elas?



Fundación de la belleza

Por Eduardo Galeano
Em Espejos – Una historia casi universal

Están allí, pintadas en las paredes y en los techos de las cavernas.

Estas figuras, bisontes, alces, osos, caballos, águilas, mujeres, hombres, no tienen edad. Han nacido hace miles y miles de años, pero nacen de nuevo cada vez que alguien las mira.

¿Cómo pudieron ellos, nuestros remotos abuelos, pintar de tan delicada manera? ¿Cómo pudieron ellos, esos brutos que a mano limpia peleaban contra las bestias, crear figuras tan llenas de gracia? ¿Cómo pudieron ellos dibujar esas líneas volanderas que escapan de la roca y se van al aire? ¿Cómo pudieron ellos...?

¿O eran ellas?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Maria e os revivals que me provoca


Minha gente, escutar Maria Bethânia faz qualquer cicatriz estourar. Tenho que parar com esse negócio de estourar cicatrizes. Tenho que parar com esses repeats eternos. Tenho que parar de mascar cada palavra da canção como se fosse feita pra mim. Ê vida de amor e desamor que maltrata dedos em dedilhar reclamações contra a vida.

Porque é que esse piano fica cutucando minha alma? Porque é que o “você” é um rosto tão antigo e presente? Ia ficar rica, se o povo comprasse dúvidas. Dúvidas e lembranças doídas. “Você que já não diz pra mim, as coisas que eu preciso ouvir...” é tão geral e tão meu, que dá uma abismada no peito.

Fico traçando linhas cronológicas mentais. Estudar o passado é desbravador e desencorajante. Passados recentes não ganharam nota de passado mesmo. Queria quebrar um ursinho de gesso lilás, mas tem dinheiro dentro. Nem eu entendo o que penso. É o piano dedilhado por alguém de um passado que não me pertenceu, embalando meu dedilhar na página negra.

Fingir não entender é sempre a melhor saída. Só não é a mais honesta. As verdades são interpretativas e, assim sendo, vão dar sempre margem para que possamos fugir delas. Jogar pensamentos dispersos que se emendam só na minha subjetividade é meio ato de egoísmo, eu acho. Preciso urgentemente de uma subjetividade honesta. Ao menos para cicatrizar a minha.

Vou montar uma banquinha de escambo. Há de haver empreendedorismo nisso. Troco verdades andantes por gestos bobos, espaços de tempo por luzes de agora, vantagens de vida por alegrias mutantes. Perfeitamente justo, já que nos negócios costumam lidar com coisas que não existem. Me eximo dos lucros.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Por que flores também nascem em destroços...


“Alguém escreve para tratar de responder às perguntas que lhe zumbem na cabeça - moscas tenazes que perturbam o sono; e o
que alguém escreve pode adquirir sentido coletivo quando, de alguma maneira, coincide com a necessidade social de resposta”.
Eduardo Galeano

Um amigo me ensinou que transformação social começa em você. E pra ensinar não é preciso só se vestir de discursos. Nem basta só levantar o debate. Seja em palavras, atos, alegrias. E você fica se pensando. E pensa. E reflete os atos cotidianos, as falas de cada hora, os olhares em pormenores.

Esse anseio, tão externo quanto interno, de ganas por mudar, de remediar problemas seculares, de reparar injustiças milenares, de acabar com discursos opressores vigentes e tão internalizados, até por quem se propõe a ir contra eles, é meio puro. É feito luz que brilha na alma humana. É feito flor, de pétalas macias, que fica a embelezar caminhos. É feito esses laços bons que te fazem encontrar pessoas com essa mesma inquietude. Pessoas que tanto e também carregam o tremor guevariano diante do injusto, das pequenas e grandes guerras, da dominação, da supressão dos sentimentos mais belos que a razão às vezes tapa. Comunhão, união, fraternidade, coletividade, respeito e cuidado pelo outro.

Repensar tradições, não engolir ideias prontas, varar por caminhos do outrem se faz necessário no mundo onde, como diria Drummond, “Caim não mata mais Abel, coloniza-o”. Me recuso a aceitar as verdades de cima, as pilhérias de quem é dono, as pancadas diárias de um destino inventado para dissimular e esconder conflitos e desigualdades sociais.

Não queria mais ver cansaços dissolvidos em fartas gargalhadas vazias, pra gerar esquecimento do fardo maior. Não me vejo dentro da prisão quadrada e brilhante, que devia ser janela de uma expressão popular. Da fala do eu, do nosso, do comum, sem critérios escusos de escolha de conteúdo. Não me ouço na caixa de som abafado, onde as falas comuns são minimizadas, as canções repetitivas, e a inteligência humana insultada, se aproveitando de um sistema que faz questão de dar poucas letras ao meu povo, e que lhe recusa até mesmo o sentar nos bancos arbitrários da instituição escola. Não me leio nessas páginas caras, que pro meu povo, faminto de tanto e sedento de alteração, enquadram uma segregação, posta pela educação qualificada, historicamente negada pelo Estado.

Pois que falam do otimismo da rede, que integra e democratiza... Mas mais uma vez, a falta de acesso às letras, aos conceitos e aos entendimentos formais privam meu povo de aprofundar o desenvolvimento de maneiras novas de expressão tão multiplicadas e que alcancem o mesmo meu povo, tanto e quanto a comunicação que não nos representa e não fala por nós. Embora, iniciativas brotem, frutíferas e consoladoras.

Chamam hegemonia, esse impor sobre o meu povo. Eu chamaria puro medo disfarçado. É mais fácil mesmo atomizar. Uma mente só jamais terá a mesma força que muitas mentes. O poder da mão com mão, de muitas mãos, é sempre quem muda o que está errado. Eu queria encher meus olhos desse tempo em que o círculo vai ser a organização social primeira, em que as cirandas não vão ser mais só alternativas.

E fica essa vontade, que, ainda bem, não é só minha, de abrir uns milhões de olhos, de gritar pruns milhões de ouvidos, pra fazer mover uns milhões de braços a clamar junto e mais bonito pelos ventos formosos da liberdade. Acho que vou continuar revendo sempre as ações, avaliando o meu certo, socializando luta, visões, contentamentos. Acho, não. Vou. Pois “eu sou muitas pessoas destroçadas” (Manoel de Barros), e quero reverter essa indignação em perspectiva...

domingo, 14 de agosto de 2011

O vaso vazio de uma flor sem forma


Antes, angustiado era o meu estar. Fazia penúrias de besteiras plenas. Mas por tempos, rumei por campos quentes, verdes, por lindos caminhos de gente tão bela no dentro e no fora. Recarreguei meu estoque de sorrisos. E assim, nem que quisesse poderia recorrer às tristezas banais. Mas a solidão, sempre regada de companhias intensas e lembrançosas, sempre volta a piscar na boca, vazia.

Meus pés latejariam pelos caminhos que andei, se neles não calçasse sandálias de vento, mais leves que as lembranças que ainda restam nas estamparias de minhas camisas. Meu tempo é um vai e volta, uma confusão. Não queria dar mais trabalho ao meu pensamento. Mas o coração, que é casto na sua indecência, me chama, me grita, me posta no muro, numa parada qualquer dessa estrada febril.

Queria por vezes ser toda ébria e enfrentar a vida sorrindo, feito o bobo que é mais feliz por que já descobriu que não precisa sofrer. Queria negar essa vontade tão humana de ficar sofrendo por algo que é tão passado, que me volta pruma esperançazinha, meio ridícula, meio indigna.

Minhas unhas não mais crescem de orgulho da mudança. Nem se colorem no pecado do querer. Meu liso é por outros motivos. Meus porquês já não se alteram. É desse vazio que me alimento. Numa hidroponia sem mesura. Nessa mania de me vestir de sentimento em flor e de flor em vaso frio, vou tomando formas que não esperei tomar.

Como pode a forma tomar o vazio? Ou será o vazio que engana a forma? Minhas respostas são cheias de vícios. Minhas perguntas não querem respostas. O lancinar do vestido na perna irrequieta preocupa a boca nervosa que rói a unha. Mordo e engulo meu desejo de mudar. Já não me apetecem os esmaltes nos dedos. Já não me arrancam delírios as flores no cabelo. Já consegui outros jardins que merecem cuidados.

Dedicar-me-ei não mais às orquídeas dos meus vestidos. Aliás, descobri nos canteiros por onde andei, seres livres, cuja fragilidade me assustou à princípio, mas que depois me mostraram a sua forte beleza. Borboletas me ensinaram a cantar. Estou a tomar lições de bater asas.

domingo, 7 de agosto de 2011

De deseo somos...


Por Eduardo Galeano
em Una Hisoria casi universal


La vida, sin nombre, sin memoria, estaba sola. Tenía manos, pero no tenía a quién tocar. Tenía boca, pero no tenía con quién hablar. La vida era una, y siendo una era ninguna.


Entonces el deseo disparó su arco. Y la flecha del deseo partió la vida al medio, y la vida fue dos.

Los dos se encontraron y se rieron. Les daba risa verse, y tocarse también.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Tinha biscuits cheios de vida


Tinha bonequinhas em cima de mesas. Tinha lembranças em cima da cama. Fitou olhos inertes, ficou com medo, mas não era o espelho. Era apenas a boneca de biscuit sentada na altura de sua mente. Tão indecisa ali, de cabelos roxos, arrupiados. As mãos estendidas pra frente, como quem pede e sabe que não vai receber. Tal qual, ela estava. Tal qual ela, era um ser perfeitamente moldado.

Tinha uma consciência condicionada. Tinha feridas na mente. Amava o vermelho e o cinza estava ali diante dela. Vergou pensamentos sobre o negror. Contaminou frases, torceu versículos, abraçou ideiazinhas medíocres. Pois que tinha um coração apertado por dúvidas. Eram seres cruéis. Apresentavam-lhe opções, cada qual com sua verdade, decepções, encantamentos. Sentiu inveja do ser inanimado, ali, expressando uma felicidade morna, sorriso de risco. Foi pintar telas eletrônicas com o dedo. Chamavam touch tal intervenção.


Descobriu. Tinha verdades desconhecidas dentro do umbigo. Tinha veredas finitas dentro do vento. Tinha vontades eternas, possivelmente, inalcançáveis. Não queria carinhos tristes com dois pontos e parêntese. Seu fazer era meio encanto cotidiano, como quem vê luz da janela do ônibus e festeja a alegria no vibrar do outro.
Depois se sentiu inerte como a bonequinha de biscuit. Mas ainda era vida, lembrou.

Fui prum Encontro, me encontrei de novo


E porque foram dias de estudos, conheceres, descansos agitados. Vi nossas ideias em muitas bocas. Vi muitas bocas entoando as mesmas palavras. Palavras de busca, de encontro, de fé. Uma fé diferente. No outro, num plano, no si para construir. Beleza. Vi beleza na indignidade. Valas não fizeram cair sonhos. Foram espaços cheios de braços, consciências, vontades. Vi círculos girando coletivo, me vesti de cirandas em noites de rio. Embriaguei-me com sorrisos de sambas, calypsos, carimbós. Misturas leves, quentes, brindadas por pés e corpos piauienses, cariocas, paraenses, capixabas, cearenses, paulistas... Vi caroés virarem repasse cultural.

Senti no efêmero o luminoso. Uns dias poucos pra grandes apertos. Quis subtrair pontuações quando conheci uns olhos negros, que me deixaram a lembrança do seu abraço num colar que tem seu cheiro.

Vi olhos aprendendo, olhos ensinando. Vi olhos que gritavam ansiosos pela transformação tão esperada. Utopia não é sonhar o impossível, li em alguns sorrisos. O Impossível é o concreto ali nos espaços, nas discussões, no repensar, no combater. Vi que formulações com pitadas de sonho são as mais belas formas de intervenção no real.

Fui ao Encontro. Encontrei vida, anseio, amigos, amor, causa, futuro. Pensei perspectivas, revi conceitos, provei deleites, vivi pedaços de Brasil, sonhei conjunto. Vi que essa sementinha, nascida no seio de qualquer opressão sofrida ou vista, que brota e floreia esperança, não é individual e isolada.

Ir ás ruas, provar do brado, compartilhar a voz do outro no mesmo tom, dá força à alma pra seguir na luta. Vi que deixar marcas na parede alheia é deixar o grito de que há algo errado. Ainda corre o risco de perceberem há tempo. Meu povo tem braços fortes moldados pela opressão. Por isso amo tanto as flores deixadas no caminho. Por isso não me canso tanto na luta deixada no caminho. Passos com flores em Encontros fazem encontrar lindeza na força. Fazem a gente se encontrar no caminho. Encontrar-se faz bem pra alma.

Enecom Pará 2011 – “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem...” (Rosa Luxemburgo). Foi lindo, agora partimos para a construção do Cobrecos Fortaleza 2012. Já escolhemos as flores. Vão ser girassóis.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Tenho tristezas alegres...


“Caminhos não há, mas os pés na grama os inventarão...”. A grama debaixo do meu solado é tão verde que me deixa anêmica de refletir. Gramas verdes combinam com flores mal criadas. Porque tenho tanta aversão à luz, que me faz medo só de pensar num jantar-fotossíntese. Enquanto não sei por que flores eu vou, enfeito vestidos e cabelos com elas.


Tenho tristezas alegres, valsas militantes, limpezas pesadas. Só dedico armários inteiros à traças por que comem elas o que a pouco me vestiu. Pedaço de mim que não preciso, roupa. Adoro as orquídeas por sua falsidade. Podia até pisar nelas por isso. Mas orquídeas são flores de vaso. Pés longe alcançam vasos. E jamais pisaria beleza.


Cabisbaixas, parecem esperar um amor perfeito, um mal me quer, um copo de leite. Ficam balançando com bocas cansadas, meio sedentas. São caras sem olhos. Um dia desses, vi orquídeas com olhos. Mal senti meu coração. Foi quando olhos bateram asas e voaram pela noite fria. Nunca vi olhos voando. Perdi aqueles olhos de vista e lá ficou a orquídea me dando língua. Outras coisas combinam com flores mal criadas.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Amar e amar e amar...


Amo e vejo que amo na poesia de umas coisas chatas. Chatas como essa lágrima teimosa que aprisiono no mesmo olho que te vê. Vê e não pode te sorrir tão fartamente, como quem diz vem e me abarca com o teu. Amo. Descubro e esqueço que te amo, porque te perdi por algum pedaço de vida mofado. E tem umas veias que vivem saltando, como se me cutucassem pra eu te chamar. Amo e não posso ser mais autosuficiente sentimentalmente como pensei que pudesse.

Ando querendo transformar aindas em agoras. Ando querendo teu queixo, teu dente, teu indicador. Lembro de quando era criança e olhava a cacimba no fundo do quintal. Tinha medo daquele profundo, daquele escuro, tinha medo de cair, de me afogar no lodo, sem ar nem esperança. Me eras tão inocente e furaste meu peito. Pensei que cicatrizes assim só existissem em letras de músicas bregas. Às vezes abstraio esse amor e penso que ele morreu, mas no fundo está lá, só assistindo TV, abobalhado. Me assistindo viver, de parada em parada, sucessões, deixando eu me enganar. Deixando eu acreditar que o novo já vem, quando na verdade, meu desconhecer de certezas é a vontade do velho renovado.

Teus olhos são a cacimba do quintal da minha vida. E já fico aqui me afogando, lembrando deles, serenos demais que são. Preciso amar e amar, convulsivamente. Sempre fui esse fraco canto da pessoa humana. Sempre não me contive em emotividades. Até quando necessitei da razão, precisava estar só.

Não quero mais preencher um lugar. Não quero momentos intensos seguidos de profundos vazios. Não quero mais variar pensamentos. Quero completude. Quero uma razão que acarinhe a minha, que a bote pra dormir e a acorde com beijos ardentes e ternos. Quero um eu para depositar-me. Se amar é perder-se, confesso que amo e só quero um. Permaneço dona de minha vontade, no entanto, meu amor é, em pedaços, teu. Quero ser livre dentro de ti...

sábado, 2 de julho de 2011

Me dá um pincel preu pintar o mundo...


Já fui de preto no branco. Já cai dum mundinho cor-de-rosa. Já descobri que o tudo azul só é feliz em letra de música. Ando que me encarno de vermelho, posto que antes amei anis, púrpuras, turquesas. Hoje caibo bem bem no rubro, seja nos lábios, seja no drama, seja na luta. Ando me atando aos roxos pós-prazer. Brigo com brancos extratores e os afasto para amar o perfeito negro. Me atraem certos amarelos de flores, sandálias, partidos. Mas é na vastidão de um belo colorido que eu alegro meus olhinhos e os torno mais gentis.


Ora, se as cores, como a gente que sofre, quando estão sós, são mais amargas, monótonas. Juntas, entorpecem, preenchem os olhos e trazem à tona instantes, reflexos. Revolucionam vistas e mentes. Chamam. Não há olhar, que triste, não careça de linhas ou formas distintas em cor. Emaranhados de tons e matizes são a pureza do ser. É como se as coisas fossem mais vivas, quando têm cores, e não cor.


Ode a emancipação sortida de nuances, que pintam brilhos monocromáticos em retinas industriais. Mais gente encarnando bombons nas ruas seria felicidade. Fitilhos levados ao vento, jardins especiais de diversidade. Policromia faz bem a saúde. Pelo menos, não deixa a vida tão chata. Ou há sorriso que se segure diante da magia de um misturado de cores? Se assim fosse, os palhaços andariam em monocolor.


Já fui de preto no branco, hoje não mais. Espalho a policromia, porém confesso que tenho quedas abismais pelo encarnado. Faz gosto.